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COLUMNISTASIsabel Amaral

UM CASAMENTO REALMENTE REAL

por Isabel Amaral

 

Portugal é desde o dia 5 de Outubro de 1910 uma república. E, no entanto, passados 113 anos sobre essa data, teve lugar na imponentíssima Basílica de Mafra, a 40 quilómetros de Lisboa, o que foi anunciado e, na verdade, foi por todos considerado um casamento real. Mas: real, porquê?

Porque a noiva, D. Maria Francisca de Bragança, era filha do actual chefe da Casa de Bragança, a que pertenceram todos os reis de Portugal desde 1640.

Duquesa de Coimbra por obra e graça de seu pai, o duque D. Duarte Pio de Bragança, D. Maria Francisca, nascida em 1997, casou com Duarte Maria de Sousa Araújo Martins, um jovem advogado de 31 anos, especializado em mercados de capitais e fusões e aquisições.

A infanta, como em Portugal (e Espanha) se designam as filhas dos reis (ou dos chefes das casas reais), com exceção da que for sua herdeira – que essa tem direito ao título e tratamento e princesa – foi a grande protagonista de uma cerimónia que mereceu a admiração e o aplauso dos seus compatriotas e cuja transmissão televisiva chegou a ter mais de um milhão de espectadores.

O casamento, celebrado pelo cardeal Clemente, antigo patriarca de Lisboa, teve lugar na basílica que D. João V (1689 – 1750), o 24º rei e Portugal, mandou construir para honrar a promessa que tinha feito se tivesse, como teve, descendência da rainha D. Maria Ana de Áustria, com quem casou.

Essa basílica, o mais importante monumento do barroco português, encheu-se de convidados (1 200, no total) que vieram dos quatro cantos do mundo para presenciar a cerimónia.

Altezas reais e sereníssimas da Albânia, da Áustria e da Hungria, da Alemanha, do Brasil, da França, da Itália, do Liechtenstein, do Luxemburgo, da Rússia, etc., ocuparam lugar de destaque na cerimónia, a que também assistiu, na posição proeminente que protocolarmente lhe compete, o presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa.

Não foi a primeira vez que um presidente da República assistiu a um casamento real. Mário Soares esteve presente, em 1995, no casamento de D. Duarte Nuno de Bragança com D. Isabel de Herédia, que se celebrou noutro monumento nacional de grande significado e importância, que também é, tal como Mafra, Património Mundial da Humanidade – o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

Essa presença pode talvez ser considerada como a primeira manifestação da inclusão dos duques de Bragança no protocolo do Estado português. É verdade que o chefe da Casa de Bragança não tem lugar marcado nas cerimónias oficiais. Apesar de muitas solicitações e petições públicas, o seu nome não foi incluído na Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português. Mas tanto Soares como os seus sucessores (exceção feita ao presidente Jorge Sampaio) se preocuparam em assegurar ao duque de Bragança uma participação em cerimónias por eles promovidas, atribuindo-lhe nelas lugar adequado.

Para além do presidente da República, estiveram presentes antigos chefes de Governo, o presidente do governo regional da Madeira, autarcas e outras personalidades de destaque na vida politica, económica e social do País. Também assistiu à cerimónia Fra’ John Dunlap, Príncipe e 81º Grão Mestre da Ordem Soberana e Militar de Malta, que tem honras e tratamento de chefe de Estado.

A presença de tantos e tão destacados convidados colocou muitos desafios ao núcleo coordenador do protocolo, em que participei ativamente. Muitos deles foram resolvidos com recurso à lei as precedências protocolares, que em Portugal se aplica «mesmo em cerimónias não oficiais».

Outra questão importante foi estabelecer as precedências entre os convidados pertencentes a casas reais reinantes e não reinantes, a que os duques de Bragança estão ligados por laços de família. Nesta matéria, a lei das precedências não se revestia de qualquer utilidade. Recorreu-se por isso ao Almanaque do Gotha, «a Bíblia da realeza e alta nobreza europeia», como alguém lhe chamou.

Houve ainda que ter em conta as regras que, em cerimónias religiosas, estabelecem os melhores lugares. Numa igreja católica, esses lugares ficam do lado esquerdo – o chamado lado do Evangelho. Desse lado ficou a família da noiva mas também o presidente da República, as principais autoridades e os convidados pertencentes a casas reinantes. Do lado oposto – o lado da Epistola – ficou a família do noivo e os príncipes não pertencentes a casas reinantes, mas também os titulares portugueses.

Na basílica, que tem a forma de cruz latina, os principais convidados tomaram assento no transepto. Os restantes convidados foram distribuídos pela nave central, sendo os lugares ocupados por ordem de chegada. Mas os lugares da frente na nave central foram reservados para os padrinhos e madrinhas dos noivos.

Foi uma bela cerimónia, que, nos seus tempos e nos seus modos, decorreu com a solenidade e a dignidade que se impunham, com conta, peso e justa medida, sem exageros, sem sobressaltos, sem atropelos. Foi realmente uma festa real, numa república que a aceitou e a aplaudiu, não se eximindo a participar nela.

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